Encontros e despedidas

Escrito por Karina Cabral em . Publicado em Conhecendo a Criança, Revista Avisa lá #25

Talvez a competência mais importante para uma professora de educação infantil seja Ouvir – assim mesmo, com “O” maiúsculo – suas crianças. Neste relato, karina, com delicadeza, humor e sabedoria, apresenta pequenas pérolas do pensamento infantil e deixa transparecer a qualidade dos vínculos que construiu com seu grupo de crianças

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Desenho: Teresa, 5 Anos


São 25 crianças de 4 anos, no período da manhã, e mais 35 no período da tarde. Para cuidar dos pequenos na sala de aula, só eu, Deus e os cinco anjos da guarda que cada um deles deve ter. Sim, porque cada criança pequena deve ter mais de um anjo da guarda. Afinal, elas fazem as maiores loucuras todos os dias e sempre voltam para casa inteiras. Mesmo nas condições mais complicadas conseguem se divertir, já que no caso desta turma, estudam em uma “escola de latinha”1. E, além disso, elas ainda dividem a alegria de viver conosco, as desvalorizadas professoras da Educação Infantil.

Infelizmente, muita gente não percebe que, trabalhando com crianças, dá para colecionar diariamente gotinhas de sabedoria, carinho e felicidade, mesmo desde o primeiro encontro, quando muitos choram, porque querem ir embora. Difícil essas coisas da vida. Eles chegam tão bebês, não sabem pegar no lápis, ir ao banheiro sozinhos. Muitos não sabem nem tirar a blusa quando faz calor ou falar o que pensam e sentem. Sofrem demais com essa coisa de ter de ir para um lugar desconhecido, sem nenhuma pessoa familiar por perto, só porque os adultos decidiram que é bom para eles.

Alguns choram muito, desesperados, mas, aos pouquinhos vão aprendendo que tem hora para tudo. Hora para aprender a amarrar o cadarço do tênis ou hora para aprender a se defender dos outros. E logo se dão conta de que, por mais que demore, a hora de ir para casa sempre vem. E, aos pouquinhos, eles vão aprendendo a contar o que pensam, a negociar, a conviver com os “nãos” e com os pontos de vista diferentes.

Tomam consciência de que é importante saber quem se é, se superar, saber brincar e se divertir. Eles sempre chegam me olhando desconfiados, com raiva ou com medo. E saem sorrindo, correndo, pulando como cabritos e falando sem parar, alegres da vida, cheios de amigos e planos para o futuro. E eu tenho de deixá-los partir, só para começar tudo de novo com outros pequenos.

Difícil essas coisas da vida. Na teoria funciona bem, mas na prática é complicado encontrar e separar, para eles e para mim. Por isso, relembrar tudo que aprendi com as crianças ajuda-me a enfrentar as separações.
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Dores da chegada
– Eu quero ir embora!
– Você vai embora, quando der a hora certa. É difícil, mas vai passar. Prometo pra você.
– Não quero saber, quero ir embora!
– Se você ficar sofrendo tanto assim, chorando tanto, fica mais difícil. O tempo demora mais pra passar desse jeito.
– (Chorando e batendo os pés no chão) Mas como eu faço pra parar de chorar quando eu não quero parar de chorar???
– E você, mocinha, por que não chora como os outros?
– Porque eu sou forte e não tenho medo de nada. E eu gostei de você.
– (Eu com ar de acabada) Então quer dizer que eles não gostaram de mim, por isso choram tanto?
– (Criança passando a mão no meu cabelo) Não, eles só não olharam ainda direito para você. Eles vão parar de chorar depois, você vai ver. Tem que ser agora
– Quando a gente vai na piscina?
– Tem os dias certos. A gente vai marcar no calendário depois.
– E quem fala quando é o dia certo?
– Eu, ué.
– Por que você?
– Porque eu sou adulta, e sei quando tem que ir e quando não tem.
– Só por isso? Pois eu acho que a gente tem que ir hoje. E eu sou criança e sei quando tem que ir mais do que você, que é adulta.

Escolhas difíceis
– Quando eu vou para minha casa, prô (sic), eu fico com saudade de você.
– Então vamos para minha casa, assim você não fica com saudade de mim.
– (Pensando) Mas e a minha mãe?
– Ela não pode ir, só você. A vida é assim mesmo, você tem que escolher se vai ficar com saudade de mim ou da sua mãe.
– (Pensando mais) Eu vou pra minha casa, então, mas eu vou falar pra minha mãe sentir muita, muita, muita saudade de você, tá? Assim ela vem junto e fica todo mundo feliz.

Aprendendo a namorar 1
– Por que você fica com essa cara quando o seu telefone toca?
– Porque é meu namorado, e eu gosto muito dele. (Fazendo cosquinhas na criança perguntadeira) Quando a gente gosta muito de alguém, fica com essa cara de boba quando fala com a pessoa, o coração bate forte, fica assim, toda besta.
– E se ele não ligar nunca mais?
– Acho que eu vou ficar triste. Será que ele não vai ligar mais?
– Ele é bem burro, imagina, não ligar mais pra minha prô. Só se ele for bestão.

Linha direta
– Ká, liga para o coelho da páscoa, liga, liga!!!!
– (Fingindo) Alô? Seu coelho? Vem aqui na escola pra gente te ver!
– (Falando pro amigo) Hehehe, olha que boba, ela acha que o coelho tá falando com ela.
– Por que você está falando isso?
– Ué, desde quando tem celular na floresta?

Professora querida 1
– Prô, tá linda com essa roupa! Parece uma princesa! Você é linda que nem uma flor de caramelo misturada com uma estrela bem brilhante, a mais linda do mundo inteiro, e eu te amo um tantão assim, ó!
– Nossa, e por que eu mereci tanto amor?
– Ué, eu só te amo!
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Não saber tudo
– Se a cabeça de pensar fica dentro da testa, e se o coração fica dentro do peito, onde fica a alma?
– Não sei, acho que lá dentro de tudo.
– Como você não sabe?
– Não sei, oras, quem te disse que eu sei de tudo?
– (Me olhando pasma e decepcionada, depois com raiva) Também vou falar pra minha mãe não me mandar mais pra essa escola, professora que não sabe de tudo, onde já se viu?

À beira de um ataque de nervos

– (Eu histérica, bravíssima) E vocês vão ver só, eu vou deixar vocês uma semana de castigo, sem parque, sem TV, sem brinquedo, sem nada!! E não quero papo com mais ninguém hoje!
– Prô, por que você fica tão brava? É só brincar de vaca amarela que a gente fica quieto, oras.

Aprendendo a namorar 2
– Prô, você está com vontade de chorar?
– Estou, mas não vou chorar.
– Por que você quer chorar?
– Porque estou triste com uma pessoa.
– Com o seu namorado, né?
– Como você sabe disso? E ele não é mais meu namorado.
– Ele não ligou mais.
– É, eu briguei com ele.
– Se você quiser chorar escondido, pode chorar, eu não conto pra eles, tá bom?

Professora querida 2

– Minha mãe mandou eu te dar esse presente, e falou que você tem muita paciência com a gente, que se fosse ela não ia agüentar.
– E você também acha isso?
– Eu acho que a minha mãe é que é uma boba, ela não sabe brincar.

Professora querida 3
– (Me abraçando, chorando e me dando uma florzinha na hora da entrada) Mas o que foi que aconteceu?
– Eu achei que você tinha morrido.
– Mas de onde você tirou isso?
– Eu sonhei que você tinha morrido, aí eu pedi pra minha mãe me trazer aqui ontem pra ver você e ela não trouxe.
– Mas ontem era domingo, eu não estava aqui. Pronto, eu não morri. Fica tranqüilo.
– Você vai morrer?
– Vou morrer um dia, mas acho que não é agora.
– Se você for morrer, você me avisa?
– Se eu puder, aviso.
– E quem foi que fez eu sonhar um sonho tão feio? Saco, viu!

Professora querida 4
– (Falando com a outra professora) Sabia que eu vou casar com a minha prô? Meu pai vai comprar um terreno, eu vou construir uma casa com uma garagem pra ela guardar o carro dela, e vamos casar.
– (Outra professora morrendo de rir) Ah, é? Ela é sua noiva?
– Noiva não. Ela é minha princesa e eu sou o príncipe dela.
– Ué, e não é a mesma coisa?
– Não. Os príncipes e princesas vivem felizes pra sempre, oras.
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Professora querida 5
– Prô, você tá doente?
– Estou, estou com muito sono e dor de cabeça. Mas passa se fizer carinho, você faz?
– Faço… Mas toma um remedinho também, tá? Assim você sara de um jeito e de outro jeito.

Passagem
– Vocês já estão grandes, é hora de ir pra classe de crianças maiores, outros pequenos vão vir…Vocês vão ter outros amigos, outras professoras, mas nós seremos sempre amigos.
– Você não gosta mais da gente?
– Eu gosto… Mas esse lance de escola é assim mesmo, vocês já estão grandes, não podem ficar mais nesta classe de bebês… Vão gostar da outra professora também.
– Tá. Mas você vai com a gente, né?
– Eu vou, mas só dentro do coração. Vocês também ficam só dentro do meu coração.
– Eu não entendi por que isso.
– Eu também não sei explicar. Mas é assim que é.

E agora é preciso deixar esses toquinhos de gente ir embora e seguir a vida longe de mim, depois de tanto olho no olho, abraço no abraço, alma na alma? “Chuif”. A vida é mesmo uma coisa difícil.

(Karina Cabral, psicóloga e professora de Educação Infantil no Serviço Social da Indústria (SESI) e na EMEI Jardim Monte Belo, em São Paulo)

1Na cidade de São Paulo, em 1996, foram construídas, às pressas, escolas pré-fabricadas de material inadequado. Essas escolas estão sendo substituídas na atual gestão.
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Ficha Técnica

Escola Municipal de Educação Infantil Jardim Monte Belo – Av. Florestan Fernandes s/no – Morro Doce – São Paulo – SP. CEP: 05272-000 – Tel.: (11) 3911-7589. E-mail: emeimontebelo@ig.com.br

Centro de Educação Infantil no 4 – SESI – Osasco – Av. Getúlio Vargas s/no – Jd. Piratininga – Osasco – SP. CEP: 06233-020 – Tel.: (11) 3686-3140. E-mail: cei04@sesisp.org.br
Contato: Karina dos Santos Cabral
E-mail: karicabral@hotmail.com.
Sites: www.mafaldacrescida.com.br e karicabral.blog.uol.com.br

Para saber mais

  • Os Fazeres na Educação Infantil, org. de Ana Maria Mello e Maria Clotilde Rossetti Ferreira. Cortez Editora. Tel.: (11) 3864-0404
  • Adaptação – Pais, Educadores e Crianças Enfrentando Mudanças, org. de Juliana Davini e Madalena Freire. Ed. Espaço Pedagógico. Tel.: (11) 5506-5208
  • A Criança e Seu Mundo, de Donald W. Winnicott. Ed. LTC. (11) 3970-9490
  • Mais Respeito – Eu Sou Criança!, de Pedro Bandeira. Ed. Moderna. Tel.: (11) 6090-1320

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Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #25 de Janeiro de 2006. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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