O Brincar e o Professor de Educação Infantil

Escrito por Márcia Tereza Fonseca Almeida em . Publicado em Reflexões do Professor, Revista Avisa lá #34

O professor que trabalha com crianças de 0 a 5 anos precisa ter uma postura investigativa para compreender a complexidade da natureza infantil e favorecer o enriquecimento das competências imaginativas dos alunos por meio do lúdico
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Ilustrações feitas pelas crianças da Associação de Mulheres pela Educação (AME – Osasco)

Conceber as crianças como seres que pensam e sentem o mundo de uma forma própria é considerar a importância que o brincar tem no desenvolvimento infantil. Desde a mais tenra idade, as crianças revelam, pela brincadeira de faz-de-conta, o esforço que fazem para compreender o mundo em que vivem e as relações contraditórias que presenciam, explicitando também as condições de vida a que são submetidas. O fato de a criança poder se comunicar desde o período sensório-motor (0 a 2 anos) por meio de gestos, sons e, posteriormente, representar determinado papel na brincadeira, faz com que ela incremente sua imaginação. Nas brincadeiras que faz, ela pode desenvolver algumas capacidades importantes, como atenção, imitação, memória e imaginação.

Brincando, as crianças amadurecem também algumas competências para a vida coletiva, pela interação e utilização dos jogos de regras e de papéis. Ao brincar, elas exploram o ambiente, perguntam e refletem sobre as formas culturais nas quais vivem e sobre a realidade circundante, desenvolvendo-se psicológica e socialmente. Devido ao seu processo gradativo de evolução, a brincadeira da criança pequena é estruturada a partir do que ela é capaz de fazer. Segundo Gilles Brougère1, a criança evolui mais nos seis primeiros anos de vida, período em que boa parte delas freqüenta instituições de Educação Infantil (creches e pré-escolas). E como essas crianças permanecem a maior parte do dia, ou mesmo o turno integral, nas referidas instituições, o brincar nesses espaços precisa ter o olhar do professor, com caráter de observação e pesquisa, possibilitando um maior entendimento sobre o desenvolvimento infantil.

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Crianças de Feira de Santana – BA brincam em parceria (fotos: arquivo Programa Formar em Rede – Avisa Lá)

Lev Semionovitch Vygotski2 atribui um papel importantíssimo à brincadeira, principalmente ao brincar de faz-de- conta, considerado um verdadeiro “laboratório da infância”. Por meio desta brincadeira, a criança cria, reinventa e se apropria da realidade circundante de forma simbólica, sobretudo por este tipo de brincadeira ser característico das crianças que aprendem a falar, e que são capazes de se envolver numa situação imaginária. A forma como o lúdico estaria acontecendo nas creches e pré-escolas públicas sempre foi algo que me chamou a atenção e despertou meu interesse. Mas somente ao participar de perto desse nível de ensino, fazendo parte da Divisão de Educação Infantil da Secretaria Municipal da Educação, como coordenadora pedagógica, pude conhecer melhor o trabalho que é desenvolvido com as crianças.

Pelo contato direto com os professores em cursos, encontros pedagógicos e acompanhamento nas préescolas, percebi que eles ainda não tinham clareza quanto à importância do brincar no desenvolvimento social, afetivo e cognitivo das crianças de 0 a 5 anos, apesar de termos realizado vários estudos com eles sobre o desenvolvimento infantil, ressaltando a importância do brincar a partir do Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (Rcnei)3.

Ao longo da minha prática de coordenação junto aos professores e crianças de algumas pré-escolas da Rede Municipal, pude perceber que os momentos dedicados ao brincar têm sido deixados para segundo plano, acontecendo apenas na hora do recreio. Neste momento, ou o professor assume a direção das “brincadeiras”, na sua maioria da escolha do adulto, ou as crianças ficam soltas na área sob o olhar atento de um professor, preocupado apenas com a segurança dos alunos. As crianças ficam livres, e os professores ignoram todo e qualquer tipo de brincadeira que elas trazem de casa.

Outra prática bastante comum é sugerir que as crianças brinquem livremente na sala quando a atividade proposta para o segundo horário termina antes do tempo previsto, visando preencher o restante da carga horária. Essas práticas têm demonstrado que questões importantes como desenvolvimento social, moral, afetivo e cognitivo que o brincar pode proporcionar para as crianças não são percebidas pelo professor. Ele não planeja esta atividade, não se envolve e nem observa o que as crianças dizem, sentem e demonstram estar pensando nesses momentos.

Apesar de a maioria dos professores terem relatado, em encontros pedagógicos ou em momentos de resgate de memórias, que as brincadeiras de faz-de-conta, regras e jogos de construção fizeram parte da sua infância e lembrarem-se dessa fase de suas vidas como algo prazeroso e criativo, não percebemos em suas práticas nenhuma preocupação com o brincar no planejamento e execução do seu trabalho diário. Como afirma Garrido4, a experiência docente precisa ser um espaço gerador e produtor de conhecimentos. Deste modo, a prática docente deve configurar-se num espaço em que o professor, pelos desafios impostos pelo cotidiano de sala de aula, torne-se um especialista do seu fazer, articulando teoria e prática.
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Em geral, o brincar é visto somente pelo seu aspecto do movimento corporal, e tido apenas como momento de pura diversão. É descartada a hipótese de que a criança aprende a brincar e tem consciência de que brinca, agindo nesta atividade em função da imagem de uma pessoa ou objeto e de situações que são evocadas, revivendo sentimentos e significados vivenciados. Segundo Vygotski, o brinquedo é muito mais a lembrança de alguma coisa que realmente aconteceu do que imaginação. É mais a memória em ação do que uma situação imaginária nova. Pensar em política de formação profissional para a Educação Infantil requer, antes de tudo, questionar concepções de criança e pré-escola. O professor de Educação Infantil deve conduzir um trabalho voltado para o brincar, visando atender todas as necessidades dessa faixa etária, tendo em vista que as brincadeiras propiciam a fantasia e a criatividade da criança, possibilitando também que estas adquiram o domínio da linguagem simbólica.

A prática pedagógica torna-se mais prazerosa com a presença das brincadeiras, uma vez que possibilita ao professor aproximar-se do mundo da criança e observá-la com mais propriedade. Para tanto, ele precisa conhecer a criança, de onde ela vem, como pensa, seus valores, histórias de vida, as representações que ela faz do mundo, para intervir de forma consistente, influenciando na construção do sujeito, na formação de sua história. Para criar situações de aprendizagens significativas o educador precisa não somente de conhecimento teórico sobre o nível de desenvolvimento da criança, mas também de experiências práticas relativas às possibilidades de exploração que as brincadeiras podem oferecer.

O professor que trabalha com a primeira infância precisa estar aberto para perceber que a natureza infantil é complexa e exige de nós, adultos, postura de observador bastante apurada, a fim de apreendermos o que é ser criança e como devemos lidar com elas. Segundo Coll e Solé5, aprendemos quando somos capazes de elaborar uma representação pessoal sobre um objeto da realidade que pretendemos aprender. Essa elaboração implica aproximar-se de tal objetivo ou conteúdo com a finalidade de apreendêlo. Nesse processo, não só modificamos o que já possuíamos, mas também interpretamos o novo de forma peculiar, para poder integrá-lo e torná-lo nosso. Como sabemos, a formação inicial do professor não vem oferecendo subsídios ou respaldo teórico que o leve a compreender qual o lugar ocupado pelo brincar na infância. É importante que este professor tenha consciência ou conhecimento do que significou suas brincadeiras de tempo de criança para sua construção pessoal e até profissional.

A ressignificação do brincar nas instituições de Educação Infantil, sobretudo por parte dos professores, requer estudo e compreensão de que sua intervenção na brincadeira é necessária. Essa intervenção tem de ser pautada na observação das brincadeiras infantis, visando oferecer material adequado e espaço que permita o enriquecimento das competências imaginativas. O brincar deve ser planejado concomitantemente com as outras áreas, pela articulação de temas e projetos que permitam registrar toda a evolução das brincadeiras, bem como aspectos relevantes de linguagem, socialização, atenção e envolvimento pessoal que dão pistas com relação ao ambiente sociocultural no qual a criança está inserida. Pois, como afirma Henri Wallon6: “a estruturação do ambiente escolar, fruto do planejamento, deve conter uma reflexão sobre as oportunidades de interações sociais oferecidas definindo, por exemplo, se serão realizadas individual ou coletivamente (…) lembrando que a escola, ao possibilitar uma vivência social diferente do grupo familiar, desempenha um importante papel na formação da personalidade da criança”.
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As atividades lúdicas como recursos da prática educativa devem estar presentes no cotidiano das salas de aula da Educação Infantil visando não só o desenvolvimento emocional dos alunos, como também a compreensão por parte dos educadores sobre os limites e as possibilidades de trabalhar as questões afetivas no contexto escolar.

(Márcia Tereza Fonseca Almeida, Pedagoga, especialista em Alfabetização e Supervisão Escolar. Coordenadora pedagógica da Divisão de Educação Infantil da Secretaria Municipal da Educação de Feira de Santana – BA. Professora e mestranda da Universidade do Estado da Bahia – UNEB)

1Pesquisador francês e especialista em jogos e brincadeiras infantis.
2Psicólogo e pesquisador russo (1896-1934).
3Publicação que integra a série de documentos dos Parâmetros Curriculares Nacionais, elaborados pelo Ministério de Educação e do Desporto, 1998. O documento se constitui a partir das concepções de criança, infância e educação, oferecendo diretrizes curriculares a todos que atuam na área de Educação Infantil. Volumes disponíveis no site: www.mec.gov.br
4e5Veja referências ao final deste artigo
6Médico, psicólogo e filósofo francês (1879-1962).
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Ficha técnica

Secretaria Municipal de Educação de Feira de Santana – BA
Divisão de Educação Infantil – Av. Senhor dos Passos, 212 – sala 201 – 2o andar Feira de Santana – BA. CEP: 44010-231 – Tel.: (75) 3255-3801/3614-1526
Coordenadora pedagógica: Márcia Tereza Fonseca Almeida
E-mail: marciatfa@ig.com.br

Para saber mais

  • Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil: Movimento. MEC, 1998. Arquivos disponíveis no site: www.mec.gov.br.
  • “O que é Brincadeira?”, Gilles Brougére. In Revista criança do professor de Educação Infantil. No 31 – novembro/1998. Editada pelo MEC, disponível no endereço eletrônico.
  • Psicologia da aprendizagem, Dinah Martins de Souza Campos. Ed. Vozes. Tel.: (24) 2246-5552.
  • O construtivismo na sala de aula, Antoni Zabala, Cesar Coll Salvador, Elena Martín, Isabel Solé, Javier Onrubia, Mariana Miras e Teresa Mauri. Ed. Ática. Tel.: 0800-115152.
  • Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil, Izabel Galvão. Ed. Vozes. Tel.: (24) 2246-5552.
  • A formação do símbolo na criança, Jean Piaget. Ed. LTC. Tel.: (21) 3970-9450
  • Professor reflexivo no Brasil: Gênese e crítica de um conceito, Selma Garrido Pimenta e Evandro Ghedin (orgs.) Ed. Cortez. Tel.: (11) 3864-0111.
  • A Formação social da mente, Lev Semenovich Vygotsky. Ed. Martins Fontes.Tel.: (11) 3241-3677.
  • Brincar na Pré-Escola, Gisela Wajskop, Ed.Cortez. Tel.: (11) 3864-0111.

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Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #34 de abril de 2008. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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