O brincar na escola

Escrito por Kathy Hodge Procópio em . Publicado em Revista Avisa lá #43

Não basta compreender que o brincar é importante nas unidades de educação infantil, é preciso saber como proporcioná-lo para que seja rico e significativo para as crianças
Foto: Fernanda Simionato

Foto: Fernanda Simionato

Atualmente, é possível dizer que, na maioria das instituições de Educação, a brincadeira é reconhecida pela sua importância. Afinal, estudos realizados em Antropologia, Sociologia, Psicologia e Linguística têm apontado que brincar é o principal modo de expressão da infância. Brincando, a criança aprende a viver e a se desenvolver. Segundo o documento Orientações curriculares: expectativas de aprendizagens e orientações didáticas para Educação Infantil, da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, de 2007, é durante a brincadeira que os pequenos têm a oportunidade de explorar o mundo, ampliar a percepção sobre ele e sobre si, organizar o pensamento e trabalhar os afetos. Diferentes pesquisadores apontam o faz-de-conta como o responsável por promover a capacidade de imaginar e criar.

Nesses momentos lúdicos, a criança representa situações vivenciadas (ou que gostaria de vivenciar) e, assim, se relaciona com seus pares. É também nessa hora que ela pode se comportar de maneira mais avançada em relação à sua idade. Ela aprende a desempenhar papéis, a reproduzir gestos e falas de pessoas ou de personagens de histórias e a inventar roteiros por meio das linguagens corporal, musical e verbal. Considerando que, hoje, meninos e meninas passam a maior parte do tempo na escola – principalmente, nas grandes cidades –, esses espaços podem tornar-se também ambientes privilegiados para o brincar. A rua não oferece mais a segurança necessária para as atividades infantis e os quintais foram suprimidos pela crescente verticalização. Também é na escola que a meninada tem mais oportunidade de conviver em grupo.

Sendo assim, parece ser consenso que a instituição escolar acolha a brincadeira como uma das principais ocupações da infância e promova atividades que favoreçam a criação de situações imaginárias para atuar em seus processos de desenvolvimento. O psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) assinala que uma das funções do brincar é permitir que a criança aprenda a elaborar e a resolver situações conflitantes que ela vivencia no dia a dia1. Para isso, ela usará capacidades como observação, imitação e imaginação. O autor também afirma que é por meio da imitação que a criança aprende. Ao imitar, ela não está simplesmente copiando um modelo e, sim, reconstruindo aquilo que observa nos outros. Assim, terá a oportunidade de realizar ações que estão além de suas capacidades. Isso ocorre quando ela faz de conta que é médico, mãe, professor etc.

Este artigo2 revela um trabalho que teve como objetivo pesquisar a presença e as características da brincadeira em instituições de Educação Infantil. Se atualmente é reconhecida a importância da brincadeira dentro do espaço escolar, como se dá sua consideração real, pelos professores, no cotidiano das crianças? O fato de a brincadeira ser reconhecida como fundamental para a aprendizagem e o desenvolvimento infantil, endossado por diferentes teóricos da Educação, garante, realmente, sua presença nas instituições e com que qualidade? Será que os professores de creches e de pré-escolas se preocupam em planejar e organizar o espaço e os materiais para utilização durante as brincadeiras? Como se organizam? Será que eles interagem e brincam com os pequenos? Para essa investigação, foram realizadas observações em duas escolas de Educação Infantil, ambas da rede particular de ensino, localizadas na zona oeste da cidade de São Paulo.

A vida como ela é (1)
Ao entrar na sala de um grupo de crianças de 3 e 4 anos, a professora me explicou que sempre organiza os cantos de atividades diversificadas no momento de chegada. Quatro mesas estavam dispostas pela sala, cada uma com quatro cadeiras ao redor. Em uma mesa, havia papel e giz de cera; em outra, letras móveis de E.V.A. [Etil Vinil Acetato]; em uma terceira, alguns animais de plástico (cavalo, porco, vaca) e, por fim, uma com panelas, pratos, copos e talheres de plástico. A professora me explicou que esse era o kit de jogo simbólico3 que servia para as brincadeiras de casinha.

Aos poucos, os pequenos foram chegando. Cada um guardava sua mochila e se acomodava em volta de uma das mesas. A professora, em nenhum momento, interagiu com eles. Ela e a auxiliar de sala circulavam pelo espaço, olhavam as agendas para verificar se havia recado, guardavam alguns papéis e conversavam com os pais que chegavam com os filhos. Três crianças escolheram o canto do jogo simbólico para brincar, mas, após 5 minutos, a professora avisou que já era hora de guardar os brinquedos para sentar em roda.

Após o lanche, foram brincar no parque, em chão cimentado e com uma casinha de boneca de alvenaria. A professora disponibilizou os triciclos para que pudessem brincar, e ficou escrevendo nas agendas. As crianças andavam em círculos com os triciclos e brincavam de dar trombadas. Duas meninas logo desistiram e entraram na casinha, onde havia apenas uma cama de madeira. As garotas logo saíram. Foram até um banco e se sentaram. Depois, deitaram e sentaram novamente para observar os colegas andando de triciclo. Após um tempo, a professora disse que poderiam brincar de Dança das cadeiras ou de Peixinho vermelho. Em votação, a maioria escolheu Peixinho vermelho. A brincadeira funciona da seguinte maneira: duas linhas paralelas são riscadas no chão para demarcar o espaço do rio. Uma criança é escolhida para ser o peixinho, que deve ficar no rio. As outras crianças ficam de um dos lados do rio e perguntam: “Peixe vermelho, podemos passar pelo rio vermelho? O peixe responde: “Só quem tiver a cor”. As crianças perguntam: “que cor?”. O peixe escolhe uma cor e apenas a criança que tiver a cor escolhida pode atravessar o rio. Aquele que não tiver a cor deve atravessar correndo para não ser pego. Quando o peixe vermelho consegue pegar alguém, este também se torna peixe e passa a ser seu ajudante. Uma das crianças disse que não queria brincar; então, ficou sentada observando.

A vida como ela é (2)
Cheguei à outra escola no momento em que a turma brincava nos parques. Em um deles, composto por um tanque de areia com escorregador, duas casinhas de madeira e diversas árvores frutíferas, algumas crianças viram um pedaço de barbante amarrado nas cercas em volta do tanque de areia e começaram uma conversa:

Criança – Acho que foi o saci!
Criança – Vamos fazer uma armadilha!
Criança – É!
Criança – Como?

Um dos meninos pegou alguns rolos de papelão na sala de Arte. O grupo ficou por um tempo tentando construir algo, mas não conseguiu. A professora de Arte, que prestava atenção em tudo o que a turma fazia desde o início, resolveu intervir:

Professora – O que vocês estão fazendo?
Criança – Uma armadilha para o Saci.
Professora – Querem ajuda?
Crianças – Sim!

A educadora resolveu entregar ao grupo rolos de barbantes. No próprio tanque de areia, as crianças começaram a entrelaçá-los formando algo parecido com uma grande cama de gato. Uma menina chegou e perguntou:

Criança – O que é?
Crianças – Armadilha para o Saci.
Criança – Então vamos colocar folhas para disfarçar!

Os envolvidos começaram a pegar folhas caídas no chão e a prendê-las entre os barbantes. Um dos meninos, que havia saído por um tempo, voltou e perguntou:

Criança – E aí, como é que tá indo a armadilha?
Professora – Tá ótima! Estamos esperando o Saci aparecer.

As crianças começaram a brincar fingindo que estavam se enroscando na teia:

Criança – Socorro! Alguém me ajuda! Olha o que o Saci fez!
Criança – Ai, eu tô presa!
Criança – Consegui sair!

Uma garota, enquanto pegava uma pedra, disse:

– Tive uma ideia! Vou deixar essa pedra aqui. Aí o Saci vai pegar, vai cair no pé dele e aí a gente vem aqui.

Tocou o sinal e todas foram lanchar. Depois, ouviram uma história de Saci Pererê. No fim da narração, o grupo foi até o tanque de areia para ver se a armadilha havia funcionado.

Criança – Achei o gorro do Saci!
Professora – E cadê o Saci? Tá aí?
Criança – Não. O Saci desmontou a armadilha.
Professora – Mas eu tenho uma boa notícia: quando o Saci perde o capuz dele, ele perde os poderes.
Criança – Da próxima vez que ele vier eu vou bater nele!
Professora – Eu acho que a gente não conseguiu porque não ficou boa. A gente pode treinar desenho de armadilha para depois fazer uma armadilha bem boa.

Emaranhado de barbante serve de armadilha para o Saci Pererê: tempo e espaço garantidos para as brincadeiras infantis (foto: Fernanda Simionato)

Emaranhado de barbante serve de armadilha para o Saci Pererê: tempo e espaço garantidos para as brincadeiras infantis (foto: Fernanda Simionato)

As crianças se animaram com a ideia e correram para a oficina. A professora distribuiu lápis e papel. Na semana seguinte, pude observar que elas continuavam construindo armadilhas para o Saci. Tentaram novamente fazer uma com barbante, mas, dessa vez, em uma das salas. A professora apenas disponibilizou o fio e deixou que elas tentassem construir uma nova arapuca.

O papel do educador faz a diferença
Feitas as observações e realizadas as entrevistas com os professores nas duas escolas, pude perceber que em ambos os casos a ideia de brincar é importante. Porém, a maneira como as duas instituições entendem e propõem oportunidades são bem distintas. O papel do educador diante do brincar também é diferente nessas instituições. A segunda escola, por exemplo, acredita que o brincar seja enriquecido pela intervenção adulta. Essa concepção pauta, inclusive, o que se espera de um professor nessa escola. Assim, ele não apenas é um profissional que observa e compreende a brincadeira, como a ele cabe, a partir de sua observação e entendimento, organizar o ambiente e os materiais que sua turma poderá utilizar durante o passatempo. Além disso, espera-se também que ele interaja com sua turma e participe das atividades em alguns momentos.

Na primeira escola não há preocupação explícita em organizar o espaço ou os materiais de acordo com a demanda dos pequenos. Quando alguns materiais são oferecidos, como os kits de jogo simbólico, eles têm um espaço delimitado e inadequado (em mesas), e o professor não interage, não propõe, não entra na brincadeira mesmo quando as crianças demonstram interesse. O único momento em que o educador compartilha é durante as propostas de brincadeiras dirigidas, como as de roda e as de regras. Mesmo nesses momentos, a interação é marcada pelo fato de que a proposição, a organização e a manutenção do jogo são garantidas o tempo todo pela professora, pois é ela quem decide o que vão brincar, quanto tempo o jogo durará e exige que todos os participantes se mantenham na roda, mesmo que não queiram brincar.

Vale destacar que a brincadeira é um comportamento socialmente construído que ajuda a criança a se compreender e também entender o universo à sua volta. Por isso, assim como Gisela Wajskop4, eu acredito que não seja suficiente dar a meninos e meninas o direito de brincar; é preciso despertar e manter neles esse desejo. Como fazer isso? Não basta apenas oferecer brinquedos para que utilizem durante o recreio. Às vezes, preciso também planejar a organização do espaço onde ocorre o brincar e dos materiais que ficarão à disposição, por exemplo. A oferta de brinquedos tradicionais e de materiais menos estruturados (tecidos, sucatas, caixas, cordas etc.) é importante, pois cada objeto cria diferentes oportunidades de ação.

O educador deve provocar desafios e, assim, possibilitar que as crianças aprendam novas maneiras de brincar. A criança não nasce sabendo brincar. Ela aprende por meio do contato com a cultura. Por isso, acredito ser extremamente importante que as instituições e os professores realizem planejamento e acompanhamento do brincar. O educador pode ampliar o tempo destinado às brincadeiras, assim como pode enriquecer sua qualidade, ajudando os pequenos a construir brinquedos e cenários para suas brincadeiras disponibilizando materiais e objetos variados.

(Kathy Hodge Procopio, pedagoga, psicóloga, professora e proprietária do It’s Playtime, espaço de recreação em que o ensino de inglês para crianças se desenvolve de maneira lúdica: com jogos, brincadeiras, culinária, histórias etc)

1Teoria registrada no capítulo O papel do brinquedo no desenvolvimento, do livro A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores, de Lev Semenovich Vygotsky. Ed. Martins Fontes: São Paulo, 2007. Tel.: (11) 3106-9133. Site: http://www.martinsfontes.com.br

2Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) A construção do brincar em duas instituições de Educação Infantil, apresentado no Curso de Pedagogia do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, em São Paulo – SP, sob a orientação da professora mestra Maria Paula Zurawski, em 2009.

3Kits oferecidos somente na sala.

4Brincar na pré-escola, de Gisela Wajskop. Ed. Cortez Editora: São Paulo, 2001. Tel.: (11) 3864-0111. Site: http://www.cortezeditora.com.br

Foto: Acervo Espaço Brincar

Foto: Acervo Espaço Brincar

 

Papel do educador

Desde o nascimento, a criança interage com diversos parceiros. O mais importante deles, na escola de Educação Infantil, é o professor. Cabe a ele ser sensível às necessidades e desejos dos pequenos, fortalecer as relações que eles estabelecem entre si, envolvê-los em atividades significativamente variadas e otimizar o uso pedagógico de diferentes recursos. A maneira como o educador desempenha seu papel é fundamental na experiência de aprendizagem de cada um de sua turma, já que ele é um modelo importante na formação de atitudes. Além disso, cabe a esse profissional auxiliar na organização das brincadeiras para que mais tarde as crianças tenham autonomia para brincar sozinhas. O documento Orientações curriculares: expectativas de aprendizagens e orientações didáticas para Educação Infantil define quatro elementos que podem auxiliar o professor em seu planejamento: as interações e as relações, o manejo do tempo, a estruturação do espaço e a seleção e o uso de materiais.

Para garantir que a brincadeira aconteça e se desenvolva, o professor deve estar presente, mas isso não significa que ele deva intervir e propor brincadeiras o tempo todo. Ele pode agir indiretamente ao observar as crianças, organizar o ambiente e ajudá-las na escolha de materiais que poderão enriquecer mais a brincadeira5.

Organização do espaço e dos materiais
O ambiente que será explorado pelas crianças deve estimular suas sensações, afetos, cognição e imaginação. Os educadores e os demais membros da equipe escolar precisam pensar como o espaço pode ser estruturado para acolher as experiências de aprendizagem, que são promotoras do desenvolvimento infantil. Para isso, é fundamental garantir que o ambiente seja aconchegante, acolhedor, seguro, estimulante e organizado. É importante que, periodicamente, apresente novidades, mudanças. É preciso também observar seu efeito sobre as interações dos pequenos e avaliar se os objetivos pretendidos foram atingidos.

Além de garantir a brincadeira, é necessário também permitir a oferta de diferentes materiais que enriquecerão ainda mais, como caixas de papelão, bolas, cordas, máscaras, carros, bonecos, sucata, entre outros. O tipo, o número, a variedade dos objetos e o modo como são dispostos, podem auxiliar (ou dificultar) o desenvolvimento da autonomia da turma na realização das atividades. Ao organizar e selecionar os objetos, o professor deve equilibrar a oferta de brinquedos convencionais, tradicionais, industrializados e de materiais menos estruturados (como tecido, papelão e sucata). Afinal, cada objeto cria diferentes oportunidades de ação.

5Pensamento retirado do livro Brincar e ler para viver: um guia para estruturação de espaços educativos e incentivo ao lúdico e à leitura, de Adriana Klisyis e Edi Fonseca. Instituto Hedging-Griffo: São Paulo. Disponível na íntegra no site http://www.institutohg.org.br

Abaixo a  menina  Isadora Nogueira prepara armadilha para pegar saci com barbante, no Espaço Brincar, em São Paulo (SP), 08/08/2008 (foto: Rafael  Hupsel/Folhapress Acima foto do acervo Espaço Brincar

Abaixo a menina Isadora Nogueira prepara armadilha para pegar saci com barbante, no Espaço Brincar, em São Paulo (SP), 08/08/2008 (foto: Rafael Hupsel/Folhapress
Acima foto do acervo Espaço Brincar

 

Ficha técnica

Kathy Hodge Procopio
E-mail: kathy@itsplaytime.com.br
Escola (observações B): Espaço Brincar – Endereço: Rua Beatriz, 77 – Vila Beatriz – São Paulo – SP – CEP: 05445-040 – Tel.: (11) 3034-4832
Diretora: Flora Marques de Azevedo Giannini
Coordenadoras: Ana Maria Franklin Gonçalves e Elisete Alves Matias Dias

Para saber mais

  • Orientações curriculares: expectativas de aprendizagens e orientações didáticas para Educação Infantil, da Secretaria Municipal de Educação. Diretoria de Orientação Técnica. Disponível no site: http://portalsme.prefeitura.sp.gov.br/Projetos/BibliPed/Anonimo/Publica_EdInfantil.aspx?MenuID=128&MenuIDAberto=88
  • Brincar e ler para viver: um guia para estruturação de espaços educativos e incentivo ao lúdico e à leitura, de Adriana Klisys e Edi Fonseca. Instituto Hedging-Griffo. Disponível na íntegra no site: http://www.institutohg.org.br/index.php?comunicacao
  • Brincar na pré-escola, de Gisela Wajskop. Ed. Cortez: São Paulo. Tel.: (11) 3864-0111. Disponível no site: http://www.cortezeditora.com.br

Este conteúdo faz parte da Revista Avisa lá edição #43 de agosto de 2010. Caso queira acessar o conteúdo completo, compre a edição em PDF ou impressa através de nossa loja virtual – http://loja.avisala.org.br

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